quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Acabou a luz no centro de São Paulo

De repente, escuridão
procura nas gavetas da cozinha
uma última velha vela
só para depois se espantar
"não tem fósforo em casa"
"acende no fogão"
"o fogão é elétrico"
uma família inteira na janela
brinca de jogar luz na rua
com um par de lanternas giratórias
embaixo, o som do borrão
sem a luz do poste
berros e risos se espalham
não há lei ou juiz
como se amanhã
ninguém fosse se lembrar
posso dizer que não fiz!
uma mulher corre piscando
aprisionada na luz dos faróis
medo de estupro no beco
filho em casa chorando
marido com outra sob os lencóis
na esquina, um único prédio aceso
proprietário endinheirado e iluminado
quando criança, apenas brinquedo importado
ainda não sabe brincar, rico infeliz
passando hora após hora
volta a energia, computador se inicia
digno de gol, gritos de comemoração
não há mais nada para olhar lá fora
a varanda já está vazia
podemos voltar a nossa própria escuridão

3 comentários:

Juca disse...

... ontem quando voltou a luz ninguem gritou...
Todos já tinham ido dormir..
Eu consegui ver da janela as salas e varandas se acendendo...
mas todos já tinham ido dormir...

Glladius disse...

Medo do escuro. É bom respeitar a noite.

M. disse...

A ironia maior é que quando a luz acaba, o espanto é tanto que todos se desesperam e ficam acordados, esperando que ela volte. Aí ela volta e todo mundo vai dormir. Mas todos apagam as luzes antes. Estranho