segunda-feira, 13 de abril de 2009

ônibus

nos ônibus de São Paulo
nas cadeiras mais altas
na altura dos meus olhos
uma barra de ferro
encobre a vista
tenho, assim, que escolher
espichar-me e olhar os prédios
ou me encolher
e assistir as pessoas

domingo, 12 de abril de 2009

Q

meus pensamentos

não me deixam em paz
por que tenho que querer

sem nem mesmo saber o quê, e

esta história de viver
está me
está me
dilacerando

vamos
vamos, que é hora de se levantar
porém, sinto que não me levantarei por inteiro
continuarei meio deitado

deitado

deitado

e
esse poema
foi um plágio

terça-feira, 31 de março de 2009

Trauma? Apenas por um dia

Chego no lugar, muitas crianças correndo, barulho e novidades para se acostumar. Puxado pela mão, minha mãe me levando até uma porta no final do pátio; por ela olho o que acontece lá dentro, a fonte do barulho. Vejo crianças de pé, gritando, muitas folhas espalhadas sobre diversas carteiras, uma parede colorida e com pinturas e desenhos pendurados. Não sei bem o que vou fazer naquele lugar, minha mãe apenas me disse que ia ficar lá até de tarde; porém, agora não tenho tempo para pensar nela, muita coisa para ver.

Minha boca meio aberta, percebo que as crianças todas são amigas, grupinhos brincando, deve ser isso o que vim fazer, mas como vou brincar com essas crianças? Como conhecer pessoas novas? Sinto medo, medo de ficar sozinho em meio a tanto barulho e diferenças. Logo minha boca começa a tremer.

Uma mulher gorda se aproxima, usa uma camisa de flores roxas, ou pelo menos eu acho que são flores, o cabelo bem curto é parecido com o meu e ela tem um grande sorriso. Então sinto um abraço, justo enquanto ainda estava desprevinido.
-Tchau, filho.
-Pode deixar mãe, vou cuidar bem dele.
Quando vou fechar meus braços e aproveitar o carinho, ela já se afastou, apenas vai caminhando para trás enquanto me olha, eu choro. Algumas crianças já me percebem enquanto sou puxado para dentro pela mão gorda, não sei o que fazer, é o dia mais assustador da minha vida. Sento no fundo, onde posso olhar a todos e a mim ninguém; a mulher solta o assovio mais alto que já escutei e diz que a aula vai começar.

No segundo dia, apenas ri divertido quando soube que ia para a escola novamente.

segunda-feira, 9 de março de 2009

poema dos resignados

Hoje solucei mais uma vez
apenas por lembrar do que se foi para ficar
na memória dos que sofrem

Pensando no que é, no que será
e que nada se tornou o que era de se esperar
que a vida mudou, como você verá

Sinceramente, não consigo mais lembrar
se eu podia te fazer rir ou não
só sei que, hoje, você pode me fazer chorar

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

quem me dera dar adeus
aos que morrem de surpresa
sem nem mesmo sentir
que a vida foi perdida
que deus, que deus?
e a dor resta ao vivo, ferido
em um mundo aviltante
em uma faixa
faixa de gaze
insuficiente para cobrir um único ferimento
entre tantos abertos, todos sem sentido

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Amiga

Lá vem ela, pescoço duro, pressão na testa, enjôo, impossibilidade de olhar um raio de luz sequer.

Minha mais antiga companheira e a que estará comigo depois que todos se forem, quando quiser que apareça, é fácil, um dia sem comer, um pouco de chocolate, refrigerante.

Até acho que, de certa forma, ela é minha amiga, me avisando quando estou passando dos limites, comendo de menos, dormindo de menos, fazendo besteira demais. E quando ela surge é fácil remediar, algumas horas deitado no escuro e tudo passa.

Já é famosa e importante, ao contrário de mim, ajudou Newton a descobrir a refração, Nietzsche a ter uma reclusão, enfim, digamos que ela teve bons contatos; porém, ela não deixa de ser um saco. Doença de mulherzinha, é fruto, ou não de problemas psicológicos, apesar de todas as historinhas, você está aí, firme e forte.

Pra você, minha melhor amiga, enxaqueca.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cacos

Um frasco cai no chão. Apenas mais um frasco, empurrado, por um acaso, para longe da mesa. Dentro dele apenas o seu asco, ao cair, ele gira no ar. Enfim, jogando para todos os lados um número de cacos e, do chão, ergue-se o odor da lembrança do perdão que dei sem que você merecesse. O seu casco pisando o chão. Um frasco em cima da mesa e você sorri ingrata. Jogo-o no chão, com uma cara de espanto, já você não se surpreende com nada, continua com seu olhar, daqueles que não sentem remorso, de quem já acabou muitos, e não pisca com o som do vidro espatifando, afinal, já está tão acostumada à destruição. Já desisti do perdão de instantes atrás. Fita-me, mas, eu não tenho coragem, fico apenas esperando você terminar, depois sair e desaparecer.